Toco a campainha e quem me atende é Zenília, moça de uniforme listrado, cabelos presos e um meio sorriso que é uma espécie de convite ao mundo que existe porta adentro. Devolvo a ela um sorriso inteiro que, de ponta a ponta, o que revela não é senão a minha felicidade em estar ali, à beira de um encontro com a senhora que me dava livros na época em que eu ainda era uma menina e havia recentemente descoberto a literatura. Dou quatro curtos passos invadindo o corredor à frente e, à esquerda, o que vejo é um amplo e claro espaço avarandado, uma sala de estar em cujos sofás branquíssimos Zenília me pede para ficar à vontade. Um café? Uma água? Eu digo que não, obrigada. A dona da casa viria logo mais, ela garante, enquanto liga a tevê de plasma, rente à parede, no Globo Esporte.
Há um piano de madeira escura no canto direito. Assim como os dois sofás, as paredes, a enorme mesa de centro, o rack, a poltrona à esquerda, algumas flores, tudo é branco. Há vasos indianos e as várias almofadas também seguem o mesmo estilo zen, com seus brilhos e cores. Há flores por todo canto, uma pequena árvore próxima à parede oposta à do sofá em que eu estou, uma reunião de plantas na varanda e uma dúzia de quadros cercando a sala, que desemboca então em uma outra, de jantar, com seis cadeiras – brancas, é claro – que cercam uma mesa de vidro, enfeitada meigamente com flores e um candelabro. Ela então aparece e tudo vira nada. No seu abraço eu me encaixo e ainda sobra espaço ali para uma nação inteira descansar.
Seu nome inteirinho é Joaquina Fernandes de Oliveira, mas para todos ela é Kina. Nasceu em 1915, quando uma parte do mundo assistia à primeira guerra mundial e a outra parte a ouvia pelo rádio. Dois anos antes, havia vindo ao mundo Vinicius de Moraes e, cinco anos depois, viria Clarice Lispector. Filha de espanhóis, Kina foi a primeira de uma prole de onze. Nasceu em um município do interior paulista chamado Pereiras, e até os cinco anos a fazenda era seu berço, seu ainda desajeitado caminho se fazia sobre terra e mato. O pai trabalhava com comércio atacadista e importação de vinhos, e era leitor inveterado. À noite, lia textos e declamava poemas para as crianças, em cujos olhinhos escuros os sonhos já transpareciam. Não tardou para que Kina se afeiçoasse àquele universo e tivesse sua fotografia e nome publicados na primeira página do jornal O Estado de S. Paulo, debaixo do título “Esperanças do Brasil” escrito em letras garrafais, ao vencer um concurso literário aos treze anos de idade.
Casou-se aos dezoito com Orlando, primeiro namorado e antigo noivo de uma amiga, com o qual trocou olhares cúmplices no cinema, destruindo o noivado e a amizade em troca de algo provavelmente maior. Adoravam-se, e o amor se solidificou com o nascimento de José Bonifácio e, seis anos depois, de Carlos Augusto. Orlando era dentista, mas fazia parte de um conjunto musical e perambulava pelas emissoras de rádio da capital levando a tiracolo o curioso primogênito, fascinado com os programas de calouros. Quando o filho menor completara um ano, porém, uma pneumonia levou Orlando desse mundo, já que não existiam ainda antibióticos capazes de salvá-lo. Deixou dois órfãos, de um e sete anos, e uma viúva de vinte e cinco. Kina então foi à luta. Deixou a vida de dona de casa, formou-se em Comunicação, em seguida em Psicologia, abriu um consultório. Ingressou também na área pública: administrava bibliotecas no interior, rodeada sempre de milhares de livros, e era também professora universitária. Enquanto isso, os filhos foram crescendo – não só em tamanho, mas em talento.
José Bonifácio, o Boni, trabalhou como redator de rádio até que, com a fundação da TV Tupi, foi chamado para auxiliar na nova empreitada. O empresário Roberto Marinho também se interessou pelo rapaz quando resolveu criar sua própria emissora, a TV Globo, e transferiu a ele a responsabilidade por toda a programação. Surgiu o Jornal Nacional, o Fantástico e, alguns anos mais tarde, idealizado por ele, o Projac – maior núcleo televisivo da América Latina. O irmão Carlos Augusto, o Guga, também se atreveu por essa área. Passou pela Tupi, pela Bandeirantes e por diversas outras, até que inaugurou sua própria produtora de vídeo, na qual dirige e produz programas, novelas e filmes. Com os filhos já grandes, Kina pós-graduou-se em Psicologia Clínica, especializou-se em neurolinguística e terapia de casais, fez cursos no exterior, lecionou outros tantos sobre crescimento pessoal e energia quântica e escreveu três livros. Engavetados, tem outros três (poesia, contos e romance) esperando serem lançados.
A família toda está no canto da sala, em dezenas de fotografias coloridas e em branco e preto que se amontoam em uma pequena mesa cor de nuvem. Dos dez irmãos, lhe sobraram apenas Isaura e Irene, a caçula. Às irmãs, nos porta-retratos, fazem companhia os dois filhos, os dez netos e os dezoito bisnetos. Depois da viuvez, namorou muito, mas não se casou de novo. “Homem ia atrapalhar minha vida”, emenda, no ato. Sozinha, viajou o mundo quase inteiro. Diz que conhece como a palma da mão a Espanha, Portugal, Alemanha, França, Inglaterra, Itália, além do Brasil, é claro. Esteve em todas as ilhas gregas, no Japão, na China, no Nepal, no Paquistão, e faz visitas constantes a Nova Iorque, onde Boni tem uma casa. Passou mais de um mês na Índia – um período de três dias em um mosteiro, onde a fome a fez preferir passar o restante em um hotel –, e cerca de três dias no meio de índios em Manaus.
A vida ainda é agitada, mesmo aos noventa e quatro anos. Toda semana se reúne com as amigas para um chá na casa de alguma delas ou em uma ou outra confeitaria, tem encontro com outros quatro cientistas para debater sobre energia quântica e problemas sociais, tem aulas de piano com a professora Eliana, e aos domingos, religiosamente, almoça com o filho Guga, além de reservar para si um tempo sagrado de solidão. Seus olhos firmes, vivos, translúcidos, cravam nos meus: “Você tem que estar consigo um pouco todos os dias, senão você se perde. Onde fica sua identidade?”. Gosta de filmes, de samba e música clássica, de programas sérios na televisão e de passar muito tempo escrevendo em seu computador. Até blog ela tem, depois de algumas aulas com o professor particular. A biblioteca tem dois mil livros, mas hoje a visão está ruim e ler é uma grande dificuldade. Em determinado momento chama por Vivi, ou Viviane, moça de uniforme azul-piscina, e pede-lhe que traga um de seus livros, “Psiu! Quem é você?”, e também seus óculos. Escreve nele uma dedicatória e me oferece, repetindo a cena que me marcara desde quando eu ainda lia apenas contos de fadas.
