quarta-feira, 18 de novembro de 2009

a senhora que me dava livros

(coluna publicada no Jornal dos Concursos & Empregos, ed. 1.511, de 14 a 20/11)

Toco a campainha e quem me atende é Zenília, moça de uniforme listrado, cabelos presos e um meio sorriso que é uma espécie de convite ao mundo que existe porta adentro. Devolvo a ela um sorriso inteiro que, de ponta a ponta, o que revela não é senão a minha felicidade em estar ali, à beira de um encontro com a senhora que me dava livros na época em que eu ainda era uma menina e havia recentemente descoberto a literatura. Dou quatro curtos passos invadindo o corredor à frente e, à esquerda, o que vejo é um amplo e claro espaço avarandado, uma sala de estar em cujos sofás branquíssimos Zenília me pede para ficar à vontade. Um café? Uma água? Eu digo que não, obrigada. A dona da casa viria logo mais, ela garante, enquanto liga a tevê de plasma, rente à parede, no Globo Esporte.


Há um piano de madeira escura no canto direito. Assim como os dois sofás, as paredes, a enorme mesa de centro, o rack, a poltrona à esquerda, algumas flores, tudo é branco. Há vasos indianos e as várias almofadas também seguem o mesmo estilo zen, com seus brilhos e cores. Há flores por todo canto, uma pequena árvore próxima à parede oposta à do sofá em que eu estou, uma reunião de plantas na varanda e uma dúzia de quadros cercando a sala, que desemboca então em uma outra, de jantar, com seis cadeiras – brancas, é claro – que cercam uma mesa de vidro, enfeitada meigamente com flores e um candelabro. Ela então aparece e tudo vira nada. No seu abraço eu me encaixo e ainda sobra espaço ali para uma nação inteira descansar.


Seu nome inteirinho é Joaquina Fernandes de Oliveira, mas para todos ela é Kina. Nasceu em 1915, quando uma parte do mundo assistia à primeira guerra mundial e a outra parte a ouvia pelo rádio. Dois anos antes, havia vindo ao mundo Vinicius de Moraes e, cinco anos depois, viria Clarice Lispector. Filha de espanhóis, Kina foi a primeira de uma prole de onze. Nasceu em um município do interior paulista chamado Pereiras, e até os cinco anos a fazenda era seu berço, seu ainda desajeitado caminho se fazia sobre terra e mato. O pai trabalhava com comércio atacadista e importação de vinhos, e era leitor inveterado. À noite, lia textos e declamava poemas para as crianças, em cujos olhinhos escuros os sonhos já transpareciam. Não tardou para que Kina se afeiçoasse àquele universo e tivesse sua fotografia e nome publicados na primeira página do jornal O Estado de S. Paulo, debaixo do título “Esperanças do Brasil” escrito em letras garrafais, ao vencer um concurso literário aos treze anos de idade.


Casou-se aos dezoito com Orlando, primeiro namorado e antigo noivo de uma amiga, com o qual trocou olhares cúmplices no cinema, destruindo o noivado e a amizade em troca de algo provavelmente maior. Adoravam-se, e o amor se solidificou com o nascimento de José Bonifácio e, seis anos depois, de Carlos Augusto. Orlando era dentista, mas fazia parte de um conjunto musical e perambulava pelas emissoras de rádio da capital levando a tiracolo o curioso primogênito, fascinado com os programas de calouros. Quando o filho menor completara um ano, porém, uma pneumonia levou Orlando desse mundo, já que não existiam ainda antibióticos capazes de salvá-lo. Deixou dois órfãos, de um e sete anos, e uma viúva de vinte e cinco. Kina então foi à luta. Deixou a vida de dona de casa, formou-se em Comunicação, em seguida em Psicologia, abriu um consultório. Ingressou também na área pública: administrava bibliotecas no interior, rodeada sempre de milhares de livros, e era também professora universitária. Enquanto isso, os filhos foram crescendo – não só em tamanho, mas em talento.


José Bonifácio, o Boni, trabalhou como redator de rádio até que, com a fundação da TV Tupi, foi chamado para auxiliar na nova empreitada. O empresário Roberto Marinho também se interessou pelo rapaz quando resolveu criar sua própria emissora, a TV Globo, e transferiu a ele a responsabilidade por toda a programação. Surgiu o Jornal Nacional, o Fantástico e, alguns anos mais tarde, idealizado por ele, o Projac – maior núcleo televisivo da América Latina. O irmão Carlos Augusto, o Guga, também se atreveu por essa área. Passou pela Tupi, pela Bandeirantes e por diversas outras, até que inaugurou sua própria produtora de vídeo, na qual dirige e produz programas, novelas e filmes. Com os filhos já grandes, Kina pós-graduou-se em Psicologia Clínica, especializou-se em neurolinguística e terapia de casais, fez cursos no exterior, lecionou outros tantos sobre crescimento pessoal e energia quântica e escreveu três livros. Engavetados, tem outros três (poesia, contos e romance) esperando serem lançados.


A família toda está no canto da sala, em dezenas de fotografias coloridas e em branco e preto que se amontoam em uma pequena mesa cor de nuvem. Dos dez irmãos, lhe sobraram apenas Isaura e Irene, a caçula. Às irmãs, nos porta-retratos, fazem companhia os dois filhos, os dez netos e os dezoito bisnetos. Depois da viuvez, namorou muito, mas não se casou de novo. “Homem ia atrapalhar minha vida”, emenda, no ato. Sozinha, viajou o mundo quase inteiro. Diz que conhece como a palma da mão a Espanha, Portugal, Alemanha, França, Inglaterra, Itália, além do Brasil, é claro. Esteve em todas as ilhas gregas, no Japão, na China, no Nepal, no Paquistão, e faz visitas constantes a Nova Iorque, onde Boni tem uma casa. Passou mais de um mês na Índia – um período de três dias em um mosteiro, onde a fome a fez preferir passar o restante em um hotel –, e cerca de três dias no meio de índios em Manaus.


A vida ainda é agitada, mesmo aos noventa e quatro anos. Toda semana se reúne com as amigas para um chá na casa de alguma delas ou em uma ou outra confeitaria, tem encontro com outros quatro cientistas para debater sobre energia quântica e problemas sociais, tem aulas de piano com a professora Eliana, e aos domingos, religiosamente, almoça com o filho Guga, além de reservar para si um tempo sagrado de solidão. Seus olhos firmes, vivos, translúcidos, cravam nos meus: “Você tem que estar consigo um pouco todos os dias, senão você se perde. Onde fica sua identidade?”. Gosta de filmes, de samba e música clássica, de programas sérios na televisão e de passar muito tempo escrevendo em seu computador. Até blog ela tem, depois de algumas aulas com o professor particular. A biblioteca tem dois mil livros, mas hoje a visão está ruim e ler é uma grande dificuldade. Em determinado momento chama por Vivi, ou Viviane, moça de uniforme azul-piscina, e pede-lhe que traga um de seus livros, “Psiu! Quem é você?”, e também seus óculos. Escreve nele uma dedicatória e me oferece, repetindo a cena que me marcara desde quando eu ainda lia apenas contos de fadas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

a véspera

Havia ali um silêncio que me calava até por dentro. Algo tão solene e ao mesmo tempo tão assustador que eu não sabia se existia ali um corpo a ser velado ou se eram só as palavras que não encontravam vazão, não encontravam umas às outras para, enfim, fazerem sentido. A construção de uma frase, naquele momento, talvez desconstruísse tudo, violentasse o silêncio de um modo tão hediondo que nem toda uma vida de bondade seria suficiente para me redimir. Qualquer monossílabo talvez desencadeasse algum fenômeno que eu não queria estar viva para ver e cuja sombra eu não queria ter em mim. Era como se algo muito grave, ou então absolutamente inacreditável, estivesse prestes a acontecer, e só em saber que estávamos à sua véspera sentíamos um pavor feroz em testemunhá-lo. A minha vontade era sair dali sem olhar para trás. Apressar o passo rumo a muito longe, ao mais longe que se pode ir a pé. Aonde meu medo pudesse encontrar um teto, um colo, e esquecer de si mesmo quando a tormenta passasse. Ou então encontrar um outro medo, juntar-se a ele e sentir-se, enfim, com coragem para seguir adiante.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O silêncio deu à luz o estrondo

(coluna publicada no Jornal dos Concursos & Empregos, ed. 1.508, de 24 a 30/10)


O suco de melancia é da mesma cor rubi da terra de Ijuí, onde gaúchos refletem sobre a vida de chimarrão em punho. É da mesma cor do batom nos lábios finos de Eliane Brum, dos quais saem frases entrecortadas e embrulhadas num sotaque de lá, do sul, mas que trazem o universo no recheio. E eu não sei se é o sotaque, a elegância, a simplicidade ou o mistério, ou mesmo o olhar de dúvida e de honestidade que nos lança tão logo nos olha, mas há algo, ou uma soma imensa de virtudes, que exibe nela uma grandeza, algo que não cabe dentro dela e sai, e então chega em nós e explode. Apesar de uma pequenez estritamente humana que ela também carrega e que convive com a grandeza como, numa jaula, um leão e um elefante, cada um rei a seu tempo.

Em Ijuí, talvez com espanto a miúda Eliane tenha visto o mundo pela primeira vez. Caçula entre os três filhos de Argemiro e Vanyr, professores de português, estava sempre de luto, carregando dores que não eram suas, deslocada numa infância que “não era nada de aurora da minha vida”, o sol sempre brincando de esconde-esconde. “Era uma dor existencial da infância”, ela diz. Ouvia as novelas no rádio com as empregadas, as histórias mais absurdas nas rodas de adultos, via da sua janela uma diversidade étnica que era como se o mundo desfilasse para ela, e depois se trancava em si mesma, no silêncio que lhe era peculiar, e jogava a chave num lugar onde só ela poderia encontrar. E demorava-se assim, digerindo o que via e ouvia, cheia de porquês e de lágrimas que não entendiam o mundo – mesmo aquela miniatura de mundo que era o seu.

Ainda assim, era travessa, sagaz, vivíssima. Seu Argemiro sentava-se na poltrona quase todo coberto pelo jornal Correio do Povo que lia, mas naquilo Eliane não via graça. À chatice do jornal, preferia os livros da biblioteca dos pais, nos quais se debruçava e perdia o equilíbrio lá para dentro, onde havia vidas, cômodos, continentes, vozes que quebravam seu silêncio. De Monteiro Lobato adiante, tudo era enigma e descoberta. Começar a escrever foi um alívio para extravasar tanta perplexidade, uma ação de despejo para tudo que a habitava, para as dores que nela moravam de aluguel. Espalhava então poemas pela casa toda, abandonados em papéis e guardanapos que o pai ia recolhendo como se fossem pistas que desembocariam em um tesouro. E realmente o eram. O tesouro não era senão ela mesma, que resplandeceu em seu livro “Gotas da infância”, lançado quando contava onze anos e, já naquela época, muitos quilates.

Quatro anos depois engravidou e Ijuí caiu sobre sua cabeça, sólida como uma laje com toda a vizinhança em cima, só que mais pesada e mais dura e mais sem dó. Não a queriam fora de casa até que a barriga esvaziasse, porque a sociedade é assim mesmo, não quer ver o que lhe incomoda, quer varrer para trás da porta o que lhe constrange. Eliane, que tem olhar horizontal, agora o deixa cair, corta o fio entre nós para mais adiante tornar a amarrá-lo, escapa deixando claro que ali é campo minado e que devemos contorná-lo para preservar partes saudáveis de nós. Importa mesmo é que daquele susto de debutante resultou Maíra, uma criaturinha loira que se tornou imediatamente o seu mais inestimável bem. Mãe e filha, então, eram duas crianças que se amavam de um jeito vitalício que uma criança não pode entender nem mensurar, mas que nem mesmo os adultos e suas ciências chegam a compreender de fato, por estar além do que somos.

Casar-se e estudar Letras eram a opção de uma mãe precoce, mas Eliane rechaçou a ideia bravamente até Maíra completar dois anos. Depois, fugiu. Deixou a filha com os pais, um bilhete sobre um móvel com uma despedida e uma saudade que ficou pairando, e quatrocentos quilômetros adiante saltou em Porto Alegre, de surpresa na casa de um tio. “Eu não sabia bem o que queria, mas sabia exatamente o que eu não queria”, ela se dobra numa espécie de fúria de mulher que ninguém domestica, que não é de pertencer nem de aceitar pouco. Prestou vestibular para Biologia, pensou em Informática, mas acabou em Jornalismo e também em História, porém sem uma vontade que a prendesse em qualquer um dos dois destinos. No quarto e último ano do curso de Jornalismo, porém, o acaso deu seu salto – e foi bem um duplo twist carpado. Um professor a fez lembrar da garotinha que preenchia papéis avulsos, que se refugiava sob o teto das palavras e tinha tanto a dizer que lhe escapava pelo caminho. Sua reportagem inaugural, “Esperando na fila da existência”, foi inscrita por uma amiga em um concurso universitário e, como prêmio, rendeu-lhe um estágio no jornal Zero Hora, o mais lido do seu estado. Revelou-se, já ali, um modo desconcertante de escrever a que o jornalismo poucas vezes havia sido apresentado, uma visão agridoce de mundo, que se curvava à magnitude do ser humano, ao extraordinário que as vidas têm em suas versões aparentemente mais simples. Uma profundidade tamanha que a ela engole e trespassa, e nos revolve como uma retroescavadeira que recolhe a nossa camada de concreto e poeira – um legado do tempo – e chega enfim ao que todos tínhamos primordialmente de humano, mas que fora enterrado vivo debaixo de tanto entulho.

Onze anos depois, no ano 2000, desembarcou em São Paulo como repórter da revista Época, que está entre as maiores do país. Partiu ao mesmo tempo para outros ramos, escreveu três livros – no momento, há um quarto em gestação –, dirigiu um documentário (“Uma vida severina”, de 2005) – há também outro em fase de pós-produção –, faturou prêmios e elogios tantos, e viu seu nome encabeçar um movimento de renovação e humanização do jornalismo, que se encontrava áspero demais e vivo de menos. Quietinha assim no seu canto, Eliane até parece inofensiva, mas tem um quê de subversão, uma fresta de Pagu. Preserva um frescor capaz de reduzir uma mulher de quarenta e dois anos – mãe de uma psicanalista de vinte e sete – a uma menina com uma vontade desbravadora que acredita nas pequenas transformações. “O mundo é feito do pequeno”, ela crê tanto quanto eu, enquanto sorve pelo canudo seu suco de melancia. O jornalismo, ela mesma afirma depois de um suspiro, deu-lhe a capacidade de viver uma utopia. E também de contar a sua história em vidas que não a sua, embora confiadas a seu próprio punho e a seu próprio olhar. Deu sentido a ela, deu respostas. E por dar tanto vulto ao pequeno é que ela é gigante e não cabe ali ou em lugar nenhum, já que não existe cela que limite vontade, que prenda sonho, que enfraqueça sua crença insuspeita de que a gentileza é nossa dinamite para fazer revolução.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

quando o impossível é invisível aos olhos


(coluna publicada no Jornal dos Concursos & Empregos, edição 1.505 - 3 a 9/10)

Entro em seu escritório enquanto Ayrton Senna é velado na tevê. A fita VHS é de 1994, tempo em que os videocassetes eram os reis da sala de estar, em que quase todo domingo era hasteada uma bandeira brasileira e a gente levantava cedo para ver. O Brasil nunca mais vai chorar tanto uma perda, nós dois concordamos, depois de um breve silêncio buscando uma palavra que nos tirasse do luto. Mas há uma perda que sempre vai nos acompanhar, permeando cada conquista, à sombra de cada bandeira que tremula. Porque há vazios imensos que os anos não preenchem nem quando viram séculos.

Quem está a meu lado, passando VHS para DVD e nos fazendo voltar no tempo, é Gonçalo Borges, alguém que acabo de conhecer e que me conta, agora com euforia de menino, da Copa do Mundo de 70, dos gols do Pelé, do incrível tricampeonato. Eu sou da época do tetra, do penta, de Romário e Ronaldo. Mas era, antigamente, ele diz, que se jogava o melhor futebol, e a conversa é longa, cheia de atalhos, se distanciando cada vez mais do dia de hoje. Falamos de ídolos, de homens que faziam o impossível se dissolver no suor, desaparecer em cada recorde, morrer em cada passo além. Como eles, na mesma marcha dos vencedores, Gonçalo também quer saber o que há detrás de cada obstáculo, e por isso sempre avança.

Já são cinquenta e sete anos desde que, numa fazenda em Novo Horizonte, a cerca de 400 quilômetros da capital paulista, sua avó lhe tirou de dentro de sua mãe. Puxou-lhe pelos pés, porque veio ao mundo invertido, e sua mãe por pouco não morreu das complicações do parto. A avó constatou: era menino, mas um menino diferente, embora o choro fosse normal, forte, valente. Os braços pendiam por entre os pés, quase se confundiam. Enrolou-o como uma múmia para que ficasse reto e foi criado como os outros cinco irmãos, embora não fosse como eles. Pequeno, arrastava-se sentado ao chão da casa, usava os pés para rabiscar e mexer nas coisas, e demorou cinco ou seis anos até conseguir dar os primeiros passos.

Participava, com todas as outras crianças da vizinhança, das brincadeiras normais de toda infância. Jogava bola, peão, bolinha de gude, empinava pipa e fabricava, com arame e lata, seus próprios brinquedos. Tinha também um batalhão de soldadinhos de chumbo, corria pelo campo, voltava sujo de barro para casa, ficava de castigo. Os pais, Joaquim e Aparecida, trabalhavam na roça e foram aconselhados a viajar com o menino à capital, até o Hospital das Clínicas, para procurar auxílio médico. Acabaram se mudando para lá, morando de aluguel e trabalhando como operários, enquanto Gonçalo passava por diversos exames e uma cirurgia para construir articulações no cotovelo. Nada, porém, mudou em sua vida. Deixou para lá os médicos.

Sem saber ainda ler ou escrever, os pais tentaram, sem sucesso, matriculá-lo em escolas comuns, mas nenhuma queria um deficiente entre seus alunos. Isso distrairia as outras crianças, causaria tumulto, estranhamentos, dificuldades de adaptação. Tiveram então de optar por interná-lo em um centro de reabilitação, onde o filho teria uma rotina de aulas e atividades complementares, como desenho, natação, tecelagem. O menino descobriu, com empolgação, Geografia e História, mas a grande paixão era mesmo Educação Artística. Aprendeu a fazer pinturas belíssimas com a boca, ganhou concursos de desenho promovidos pelo governo para campanhas de educação do trânsito e ambiental, foi o símbolo de muitas delas, um prodígio. Entretanto, apesar de toda a evolução, via os pais apenas uma vez por mês e chorava de saudade de casa, da liberdade – antes tão ao alcance –, dos campeonatos de bolinha de gude, da pipa cortando o céu. Ali dentro, Gonçalo passou seis anos. Quando saiu, já beirava a adolescência e sentiu, lembra-se que pela primeira vez, a rejeição olhando seu defeito de canto de olho.

Foi finalmente aceito em uma escola e o início, com atenções exageradas das professoras, foi uma fase complicada. A dificuldade era enorme para arranjar uma namorada, mas os amigos ele ia somando com o passar dos dias. Tem esse dom de cativar, olha no olho, abre um sorriso depressa e puxa o fio de uma conversa, como se fosse um novelo de lã que ele vai desenrolando, desenrolando. É um homem de carisma, a muitas léguas de ser coitado.

Acabou formado em Publicidade e em Artes Plásticas e pós-graduado pela USP. Pinta com a boca e com os pés palhaços que quase saem da tela para rir para nós e rosas de um vermelho tão vivo que parecem cria de um florista, e não de um pintor. Debruça-se sobre a tela em branco e vai germinando com cores e pincel borboletas, paisagens, anjos, peixes, pombas brancas, o mundo. Dá palestras motivacionais no Brasil e também fora, na Áustria, em Portugal, no México, no Uruguai. Mora no bairro da Penha com o pai, já viúvo, e com a filha Cidinha, de cinco anos. Separado da primeira mulher, se casará novamente em janeiro com Fabiana, moça simpática que me conta da viagem do casal em julho para a Bahia, sua terra natal, e das pouquíssimas dificuldades que o noivo tem no dia a dia. Dirige um carro adaptado, põe o cinto de motorista, escova os dentes, toma banho, veste-se, usa e conserta o computador, tudo sozinho. Para ele, nada é mistério. O obstáculo maior é o ser humano, é o preconceito que corre solto por aí como bicho sem rédea, selvagem e predador.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

irreversível

Voltar não é uma opção. A cada passo que a gente dá, o tempo apaga o anterior. Então lá atrás é abismo. É um vazio que varre o passado, joga tudo numa máquina de moer lembranças, e o que fica na gente, atropelada, é a vontade de não ter ido além, de parar o passo na metade, de construir uma ponte entre o agora e o agora há pouco. Mas não dá. E um sino fica badalando “nunca mais”, “nunca mais”, “nunca mais”, num mantra que rege minha vida a partir de então. Para sempre um nunca mais. O desespero sobe e desce as escadas até cair e ficar tetraplégico, para sempre ali imóvel como todas as mobílias que você deixou para trás em mim. O desamparo, que também ficou, caça seu fantasma em cada cômodo e chora quando o vê, como se fosse a aparição de Nossa Senhora. Um choro de quem acredita em milagre e o espera acordado toda noite, sem deixar que os olhos se distraiam com mais nada – lua, estrelas, visões. E seu fantasma dança porque está em casa, porque está à vontade, porque agora atravessa as paredes, brinca de desaparecer e aparece nas horas mais impróprias, quando percebe que eu estou perdendo o medo. Mas a esperança é tão burra que insiste, vai recolhendo as migalhas de pão pelo caminho até chegar ao lugar nenhum que o destino aprontou para nós. Depois volta pela mesma estrada jogando as migalhas para logo se enganar mais uma vez. De tão cega, não enxerga o impossível, o tempo correr lá fora pelo gramado imenso da vida, semeando um cemitério por onde já passou. O fim é um corte horizontal na garganta e o que é irreversível, na verdade, mais do que tudo, é esse bendito amor, que nenhum transplante substitui, nenhuma guerra mutila, nenhum apocalipse faz acabar. Nenhuma parte de mim desiste.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

depois do pôr-do-sol

(coluna publicada no Jornal dos Concursos & Empregos, edição 1.503 - 19 a 25/09)

Era bom quando brincava de bonecas com as amigas da rua, jogava barrabol ou assava biscoitos no fogãozinho de brinquedo que ganhara do pai. Quando corria com os filhos do marceneiro e da professora pelo terreno baldio, onde havia, enjeitado e solitário, um carro alaranjado de ferrugem e velhice. E quando, na escola, todos se sentavam em volta da grande mesa e diziam suas lições, suas dúvidas, suas ideias de mundo. Ou quando, na volta da missa da igreja de São Luís, descia a rua Haddock Lobo, entre outras moças e senhoras com seus chapéus de abas largas, até a porta de sua casa, na rua Augusta, bem perto da alameda Tietê.

Dorina havia vivido dezessete anos até 1936, numa São Paulo de bondes e casarões, mais de vinte anos antes da fabricação do primeiro Fusca brasileiro. Em um dia nunca esquecido, assim de repente, sem qualquer explicação, o olho direito não viu mais nada. Nada, nada mesmo, como uma câmera que deixa de funcionar ou uma janela que se cobre com uma persiana. E, a última imagem que Dorina viu foi sangue escorrendo pelo olho que lhe restara intacto, o esquerdo, enquanto contemplava a fotografia de um navio, que partia rumo à Europa. Diz que “foi como chuva escorrendo no vidro, com uma lágrima embaixo”. Uma hemorragia que apagou o mundo e lhe condenou a um túnel sem promessa de luz no final. Ouviu do oculista que a cegueira era irreversível, embora a causa seja um mistério até hoje.

Nascera em 1919, um ano depois do fim da Primeira Grande Guerra, filha de um português sério e exigente, mas que a cercava de carinho, de coisas bonitas de ver, de livros. Tinha em casa também a mãe e mais dois irmãos – o menor muito levado, e a mais velha, tão querida, que ajudou a criá-la e a tinha como boneca. São suas lembranças ainda em cores. “Oh! Que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”, ela declama o saudosista Casimiro de Abreu. Mais adiante, diz que “a felicidade é como um pomo, que nunca pomos onde nós estamos, e nunca estamos onde nós o pomos”, uma poesia de Vicente de Carvalho. Dorina sempre gostou de poesia, e afirma, convicta, que a encontramos diariamente por aí, espalhada nos quatro cantos da vida. Gosta de contemplar palavras, e algumas chega até a repetir, para saboreá-las como se fizessem parte de um cardápio. Gostava do pôr-do-sol. “Muitos dizem que é triste, mas para mim era lindo”. E das flores, do céu, das estrelas, do riso das crianças, dos campos bem verdes.

Ela tem dois mundos. O de fora, que são vozes, perfumes, sons, e o dentro, que são sonhos, dores, amor. Pode ouvir os pássaros, o ruído infinito de uma cachoeira, o trovão, a tempestade e a ventania que revolta as árvores. O mundo é o que ela toca, é a textura das pessoas e das coisas, são as formas que os seus dez dedos devoram, envolvem, desvendam. Suas lembranças, quase todas, são despidas de imagens. Foi a tantos lugares, atravessou oceanos, conheceu papas, grandes escritores, tantos países, e em sua memória ficaram os objetos, as estátuas, as vozes. E se lembra da escritora Helen Keller, em seu livro “A porta aberta”, quando diz que quando se fica cego uma janela se fecha, mas às vezes, por se preocupar tanto com aquela janela que se fechou, não se veem as dez portas abertas ao redor.

“Não poder ver é muito duro para você enfrentar, porque o mundo é muito atraente. Tive de me consolar em não ver todas as coisas, mas não é por isso que elas deixaram de existir. Então vibro quando sei que à minha volta existe uma paisagem bonita”, Dorina parece uma mistura homogênea entre sonho e realidade e brilha muito mais que a luz. Quando se viu cega, quando se viu do avesso, não houve desespero nem revolta nem ilusão. Aceitou sem nem sequer travar uma briga com Deus. Pelo contrário, agarrou-se a Ele, não parou de rezar, e fizeram, os dois, um trato: o de que, antes de deixar o mundo, Ele lhe permita dar uma voltinha pela Terra para enxergar todos os lugares pelos quais passou sem ver. Ela então ri, e repete o riso mais tantas vezes, riso pacífico e com tanta ternura, que nos dá a impressão de que é mais feliz do que a maioria de nós.

Parece que Dorina não sabe o que é medo nem limites. Mesmo no escuro, com os olhos vendados, foi pioneira em muitas coisas. Foi a primeira cega a frequentar uma escola pública, formou-se professora e, junto com as colegas, criou o primeiro curso de especialização em ensino de cegos do país. Em 1945, após a Segunda Grande Guerra, pleiteou e conseguiu uma bolsa de estudos, paga pelo governo norte-americano, para cursar especialização em educação de cegos na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Na viagem, conheceu o advogado Alexander Nowill, com quem se casou cinco anos depois e teve cinco filhos. Sentindo falta de uma imprensa de livros em braille no país, implantou logo em 1946 a primeira, que hoje já é a maior da América Latina, junto com a Fundação do Livro do Cego do Brasil, transformada há dezoito anos em Fundação Dorina Nowill. É um verdadeiro império que leva o seu nome. Em 79, foi eleita presidente do Conselho Mundial dos Cegos e coleciona prêmios e condecorações. Érico Veríssimo já lhe escreveu uma carta em que dizia: “Sua vida é um romance que eu gostaria de ter escrito”. Dorina semeia a vontade, em nós, de ver em dobro.

Imaginei se seus olhos, em coma por 73 anos, de súbito, pudessem ver a luz. Qual a primeira imagem que escolheria caso voltasse a enxergar? “Será que eu teria coragem de escolher? Não. Ela que aparecesse. E tudo seria lindo. Você já imaginou voltar a ver?”, ela me comove, mas prossegue: “Não fico sonhando. A minha retina ficou toda manchada com sangue, a córnea também não tem como reconstruir. Eu não me iludo. Eu não vejo. Não há nada no momento que a ciência possa fazer. Eu preciso dessa realidade para poder sonhar. Mas Deus pode querer um dia mudar as coisas”.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

desconstrução

Bebe meu veneno de canudo – tudo. Mudo feito um criado, um muro, um santo. E pronto. Pranto em que se afoga, no vaivém do próprio choro. Tolo. Como se um tijolo atravessasse sua veia úmida, impávida – contorcida então, resignada então, como os olhos num clarão de fim de mundo. Afunda. Morre de congestão, imerso num vazio que não sou eu, não é ninguém. É ele. Tão flácido, tão tímido, poético, que nem de longe lembra aquele homem sórdido. Que mórbido!